“Qual é o peso ideal?” Essa é uma das perguntas mais frequentes nos consultórios — e também uma das mais mal compreendidas.
Do ponto de vista médico, especialmente na cardiologia, o número na balança isoladamente diz pouco. O que realmente importa para a saúde não é apenas o peso, mas principalmente a quantidade de gordura visceral — aquela que se acumula ao redor dos órgãos como fígado, pâncreas e intestinos.
Diferente da gordura subcutânea, que conseguimos “pinçar”, a gordura visceral é metabolicamente ativa e está diretamente ligada à resistência à insulina. Esse processo é um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer e até demência.
É por isso que duas pessoas com o mesmo peso podem ter riscos completamente diferentes.
Essa visão mais moderna da medicina ajuda a explicar o impacto de um estudo recente que vem chamando a atenção da comunidade científica: o SURMOUNT-OSA Trial.
Trata-se de um ensaio clínico de fase 3 que avaliou o uso da tirzepatida — um medicamento já utilizado para diabetes e obesidade — no tratamento da apneia obstrutiva do sono, uma condição comum e frequentemente subdiagnosticada.
A apneia é caracterizada por interrupções repetidas da respiração durante o sono, levando à queda de oxigenação e aumento do risco de hipertensão, arritmias e insuficiência cardíaca.
O estudo acompanhou pacientes com obesidade e apneia moderada a grave por 52 semanas. Os resultados foram expressivos: houve redução de até 60% nos episódios de apneia e cerca de metade dos pacientes atingiu remissão clínica da doença.
Além disso, os participantes apresentaram perda de peso significativa (em torno de 18 a 20%), melhora da pressão arterial e redução de marcadores inflamatórios.
Embora a perda de peso tenha papel importante, os efeitos parecem ir além disso. Acredita-se que a medicação também atue reduzindo a gordura nas vias aéreas, melhorando o controle respiratório e diminuindo a inflamação sistêmica.
O impacto clínico é relevante. Até então, o principal tratamento da apneia era o uso de CPAP — um dispositivo que mantém as vias aéreas abertas durante o sono, mas não trata a causa da doença.
Com esses novos dados, surge a possibilidade de uma abordagem farmacológica que atue diretamente nos mecanismos da apneia, especialmente nos casos associados à obesidade.
Ainda assim, é importante destacar: não se trata de uma solução universal. Pacientes com alterações anatômicas ou outros tipos de apneia podem não ter o mesmo benefício.
O que esse estudo reforça é uma mudança de paradigma: mais do que focar apenas no peso, a medicina está cada vez mais direcionada à qualidade metabólica — e à redução da gordura visceral como estratégia central para prevenir e tratar doenças.
Dr. Diego Roumow - Médico Cardiologista
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